Você está devendo alguma coisa para alguém?

Na minha infância, era muito comum escutar as pessoas usando essa questão do título quando alguém pedia um conselho sobre uma ação que dizia respeito somente ao interessado. Uma amiga, por exemplo, perguntava à outra:  “Tudo bem se eu sair na rua com bobes na cabeça?”. Ao que a interlocutora respondia: “Claro que sim, você está devendo alguma coisa para alguém?”. Achava essa expressão muito interessante, tanto é que passei a usá-la sempre que surgia uma oportunidade cabível. Exemplos? “Vou parecer muito ‘atirada’ se ligo pro meu paquera?”, “Posso ficar com essa roupa quando a visita chegar?”, “Eu tinha um pedaço de alface no meio dos dentes e passei um tempão falando com o vendedor da loja…”. Após a brevíssima análise de que a ação não teria – ou não teve –nenhuma implicação com qualquer outra pessoa, eu respondia, com alegria e confiança: “Tudo bem! Você não deve nada a ninguém!”. Conforme os anos foram passando, acho que a expressão caiu em desuso. Passei a utilizá-la menos vezes, mas não porque as situações para tal deixassem de existir, e sim porque entrou em cena a sua equivalente:

Ninguém tem nada com isso.

O significado da expressão aí acima todo mundo sabe, mas não custa relembrar. Desde que você não prejudique nada nem ninguém, nem faça nada ilegal, você é livre para fazer o que quiser. O QUE QUISER. Só que ter a liberdade de não se importar com o julgamento dos outros é algo difícil para a maioria das pessoas. Afinal, não buscamos a aprovação do outro, desde que nascemos? Primeiro dos nossos pais, depois dos amigos da escola, dos colegas do trabalho. Todo mundo quer ser aceito. Mas a vida, em geral, também se encarrega de nos fazer crescer e amadurecer. Aí, se tudo der certo,  formamos nosso próprio repertório, temos nossas próprias opiniões, fazemos nossas escolhas. E o mesmo acontece com o outro, que também terá opiniões próprias, nem sempre  coincidentes com as suas – aliás, o mais certo é que elas vão divergir com frequência. Acontece também de alguém achar que sabe mais, que seu estilo de vida é o certo e, mesmo não fazendo por mal, fica se intrometendo  na vida do amigo, do parente, do colega. Se mete até na vida de quem não conhece. Eu sei, todo mundo já fez isso. Eu também já fiz. Mas vamos combinar que isso não facilita pra ninguém.  Se fazer nossas próprias escolhas já é difícil, imagine então tendo de levar em conta o que vai agradar ao outro. Sem contar que arriscamos a desagradar a nós mesmos.

Fazer o que desejamos é o melhor que podemos fazer por nós mesmos. É direito de cada um. Quem me mostrou isso em sua plenitude foi um amigo muito querido. Ele, solteiro, sem filhos, maior de idade, trabalhador, independente financeiramente e cumpridor de seus deveres, já foi considerado louco, com alguns atenuantes, pelo nosso círculo de amigos. Hoje, eu sei que ele no máximo pode ser considerado excêntrico. Seguinte: ele adora comprar e não consegue parar. Mas não fica endividado por isso, nem deixa de pagar suas contas. Está tudo certo com as finanças dele. Ele também se isola de todo e qualquer contato com o mundo no dia do aniversário dele. Pode parecer estranho, mas é uma opção dele. E não prejudica ninguém. Mas sempre tem alguém para meter o bedelho, e dizer que ele é estranho, ou que ele não pode gastar tanto.  Ele sempre me diz: “Sou livre, prezo minha liberdade e não suporto que ninguém se meta na minha vida, pois também não me meto na vida de ninguém”. Então, aos poucos, por mais que eu às vezes achasse que ele estava errado, eu entendi. Passei a respeitar as escolhas dele, e por consequência, as dos outros. Quando me deparo com a situação, paro e penso, antes de sair julgando ou impondo o que EU acho que é certo. Percebi que somos livres, sim, para fazer o que desejarmos, se não prejudicarmos os outros.

As pessoas têm direito de te aconselhar (se você estiver em busca de conselhos, claro), mas não de dizer que você está errado se, por exemplo,  torra todo o dinheiro que ganha e não guarda nada para a sua aposentadoria –  o único prejudicado é você mesmo, certo? Nem se você optou por não ter filhos. Nem se você é casado e dorme em camas separadas. Nem se você vai para a balada todo dia. Nem se você é um (a) coroa e gosta de parceiros mais jovens. Nem se você exibe um corpo fora de forma na praia. Nem se você quer ter parto natural sem anestesia. Nem se você se alimenta apenas com fast food. E por aí afora. Tudo o que concerne somente a você, e não te incomoda, porque deveria incomodar a quem não é afetado? Claro, existem convenções sociais e regras que convém seguir. Dependendo do lugar em que você trabalha, pode não ser adequado aparecer lá de chinelo, por exemplo. Nem chegar bêbado num enterro. Mas isso vale apenas para o âmbito social e profissional. Com a sua vida, você pode fazer o que quiser. Quem tem de avir-se com seus desejos e vontades, é só você mesmo.

Qual é o seu preço?

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A vendedora me contou que o colega de trabalho lhe sugeriu oferecer ao cliente um computador usado como se fosse novo. Ela ganharia 300 reais. “Imagina seu iria aceitar isso, de jeito nenhum”, bradou. Foi apenas o tempo de registrar o pensamento sobre sua honestidade. Em sua fala rápida, ela voltou à carga: “Se um dia eu fizer isso, será por um milhão de reais, e não por 300”. E repetiu, repetiu e repetiu a frase, como se ela fosse o bastião da ética e da moralidade. Quanto mais ela falava, mais aumentava seu tom de voz. Crescia também sua certeza de estar correta. Para mim, o mal-estar era como uma névoa, que ia se tornando cada vez mais espessa. Nunca soube que valores financeiros serviam de lastro aos valores morais.

De escroto, todo mundo tem um pouco.

Todo mundo tem pelos, suor e cheiros

Se você come no yakissoba da Paulista,

Ou no restaurante Figueira,

Não faz diferença

Você ainda transpira

Com mau-hálito, não tem finesse que resista

 Gente tem gases, cera e fluidos

Um sorriso com alface ou casca de feijão

É premissa de quem almoça e janta

Se você come,

regurgita,

e elimina resíduos,

Não me venha com falsos pudores

Nem me olhe de cima

No fim,

Todo mundo vira pó.

Seja grisalha (o). Ou não.

Já falei muito sobre o tema dos cabelos grisalhos em rodas de amigos, já escrevi até uma matéria para a revista Bons Fluidos (http://casa.abril.com.br/materia/mulheres-cabelos-grisalhos-brancos). Mas não tem jeito, o assunto sempre volta à tona no meu dia-a-dia. E me admira como mexe com as pessoas, especialmente com as mulheres. Outro dia, numa loja de calçados, uma mulher me perguntou se meu grisalho era natural ou se eu fazia mechas. Respondi que é meu cabelo mesmo, ela comentou que achava bonito. Depois revelou: “Eu gostaria muito de deixar o meu cabelo natural também, mas meu marido não deixa”. Pobre mulher. Mas não tive outra reação a não ser dar um sorrisinho condescendente. Não ia ficar tentando convencê-la de que deveria fazer o que tem vontade. Pensando bem, será que ela tinha vontade mesmo?

Um dia na praia, a simpática vendedora da barraca do milho, com quem eu já tinha estabelecido uma relação de gentilezas, comentou no seu grupo de amigos que achava lindo o meu cabelo porque tinha equilíbrio entre os fios brancos e os pretos. Ela me mostrou algumas das suas raízes brancas e disse: “No meu, eu passo tinta porque os brancos estão muito concentrados em alguns pontos. Mas bem que eu não queria mais pintar”. Mais uma vez, eu sorrio.

Outras tantas me abordam nos lugares mais diversos. Todas elogiam. Acho que é jeito que elas encontram para ter abertura no diálogo. Invariavelmente, as perguntas se repetem: “Tem mecha?”, “É natural?”. Da maioria delas, eu escuto: “Queria deixar o meu grisalho, mas, ah, não tenho coragem…”.

Coragem? Coragem de quê? De assumir sua idade? De assumir quem você é? De ir contra os padrões da sociedade? De mostrar que você tem preguiça de pintar o cabelo? Seja qual for a razão para essa falta de coragem, proponho a essas mulheres uma pensata. Mergulhem em si mesmas e respondam: Não exibir cabelos brancos é um valor seu, ou uma imposição social?

Se o seu trabalho, o seu marido, a sua família ou seja lá quem for te impõem isso e você está infeliz e em desacordo, lute contra e deixe o seu cabelo do jeito que você quiser. Se não consegue bancar essa decisão, sinto muito. Mas lembre-se: trata-se de você, e das suas escolhas.

Por outro lado, se você já se viu de cabelo grisalho ou branco e não gostou, pinte. Pinte e seja feliz. Fique bem consigo mesma. Repito: trata-se de você, e das suas escolhas.

Eu? Deixo meu cabelo assim porque quero. Não é ideologia. Não é uma bandeira feminista. E um dia, eu posso mudar de ideia. Quem sabe?

Obs: me dirijo às mulheres pois o conflito delas com essa questão é maior. Mas também vale para vocês, homens. No caso masculino, me parece que a patrulha é inversa. “Homem que é homem não pinta o cabelo”. Porém, não se intimidem. Se não gostarem de ser grisalhos, mandem ver na tintura.

Mestre Rubem

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Não costumo assistir muito à TV, mas dia desses, zapeando entre os canais, me deparei com uma joia. Era uma mini-biografia do educador Rubem Alves, em primeira pessoa. Ele mesmo contava as passagens mais importantes e tocantes de sua vida. A certa altura, ele visitava a fazenda em que morou, em Campinas, e ali decretou: “Nunca revisite um lugar do qual você gostava muito no passado, pois ele nunca mais será o mesmo”. Naquele dia, aquele conselho me pareceu implacável demais. Fiquei repassando mentalmente os lugares de que eu gostava e achei que valia a pena sim, vê-los novamente. Mas a advertência permaneceu guardada, submersa em algum canto da mente, e de vez em quando vinha à tona. Até que numa sexta-feira chuvosa de novembro passado, eu me deparei com a situação, de maneira limpa e cristalina. Caminhava sem pressa nos quarteirões próximos à casa onde morei na Vila Madalena durante vinte anos, nas décadas de 70 e 80. Sabia das mudanças, pois passo por ali de carro com certa frequência, para cortar caminho. Mas é que nunca havia observado de fato, com atenção e sentidos vigilantes. E naquele dia, fui olhando uma a uma as construções, as pessoas que passavam na rua, o farol, o tráfego de carros. Sim, estava tudo transformado: gente para todo lado, buzinas, comércios movimentados. Aí, cheguei na esquina da minha pequenina rua, e olhei minuciosamente a primeira casa, onde costumava viver uma família de três filhos. As duas meninas eram gêmeas não idênticas. Todos ali eram pessoas humildes, muito discretas, super trabalhadoras. Será que ainda moram ali? É provável que sim, pois a casa está igualzinha. Enquanto várias outras foram modernizadas, ela permanece simples, com a mesma fachada (que deve ser dos anos 1940 ou 1950) e um certo desleixo no quintal. Do portãozinho de ferro, dá para ver que a porta está aberta e um gatinho descansa no tapete da entrada. Sigo em frente, repassando mentalmente os moradores de cada casa: Seu Álvaro, as senhoras japonesas, os gêmeos, Dona Marina, Rafaela, Alexandra e Dona Tereza, Mariazinha, Dona Lídia, Dona Amélia…A casa da dona Aurélia mudou completamente. Só lembro que ficava ali pelo número. E como ela, tantas outras que não consigo reconhecer: desprovidas de suas características originais, agora são casas que poderiam estar numa revista. Perderam o acanhamento e a simplicidade. Não que isso seja ruim. Só que a minha rua agora é descolada. Aliás, todo o bairro da Vila Madalena é bacana, descolado, atraente, hipado, e toda a sorte de adjetivos modernos. E se por um lado isso me causa admiração e orgulho, por outro me dá uma dor no coração. Porque eu quase já não o reconheço, ele não é mais o meu bairro. Não é o lugar pacato de crianças brincando na rua, de donas de casa, de comércios pequenos e de pouco tráfego de carros. Esse não existe mais, só na minha memória. Já não nos pertencemos. Por isso a confusão de sentimentos, o nó na garganta. Rubem estava certo.

De carros e armas

Quando se mora numa cidade como São Paulo, é mais fácil manter a fé na humanidade ficando em casa. Pois basta botar o pé fora da porta para me deparar com gente que não respeita nada nem ninguém. Como não perder a crença? Mas é preciso sair e cumprir tarefas. Respiro fundo. E lá vou eu. No trânsito da avenida, dou uma buzinada de advertência para um (a) sujeito (a) que quase me fecha ao tentar se incorporar à faixa. É o que basta para que essa pessoa fique descontrolada e saia arrancando com uma tresloucada atrás de mim, colando seu possante Mercedes-Benz na traseira do meu carro. Ele/ela fica me intimidando, mantendo a proximidade numa velocidade que, a qualquer brecadinha, vai gerar um acidente. É guerra! Eu permaneço ali, no meu ritmo, mas amedrontada com o ódio desse motorista. Para quê isso, meu Deus? Uma buzinada de aviso para quem vai fazer uma manobra perigosa agora é insulto? Pela reação dessa pessoa, parece até que apontei uma arma para a cabeça dela. Mas passados alguns segundos ou minutos (sei lá) de tensão, ele/ela desiste e sai pisando fundo, passando rápido do meu lado direito, na faixa de ônibus. É ou não para se desencantar com a raça humana?

Sigo o caminho tentando me recompor do susto. Daí, sou eu que começo a receber buzinadas insistentes atrás de mim. Mas não estou desatenta, sigo o fluxo do tráfego, que está lento. Dessa vez consigo ver que se trata de um homem, pois o veículo não tem insulfilm. Ele está enloquecido, quer andar mais rápido. Eu resmungo no interior do meu carro, levantando a mão com o gesto de “o que você quer que eu faça?”. Quando o farol fica vermelho, minha vontade é de descer do carro, ir até a janela dele e dizer: “Meu senhor, não tem o que fazer. Quer passar por cima do meu carro?”. (Aqui, me permito uma digressão: essa cena aconteceu de verdade com uma amiga minha – no caso, ela era a pessoa que buzinava – e isso lhe serviu de lição quando a moça do carro da frente desceu no meio do trânsito e foi questioná-la. Desde então, sempre penso que gostaria de ter coragem para fazer o mesmo. Mas, hoje em dia, todo cuidado é pouco. Há gente que atira nos outros por nada: eu já fui testemunha de uma briga no trânsito em que um dos envolvidos sacou um revólver, deixando paralisados de medo todos que estavam em volta).

Retomando: o homem nervoso em questão encontra uma brecha na faixa da direita, também sai pisando fundo, só para então ficar parado no próximo farol, quase do meu lado. “Viu,só? O que adiantou tanto estresse?”, penso comigo mesma, enquanto mais uma vez constato que as pessoas se matam no trânsito por míseros segundos. Viram todos inimigos, lutando por espaços milimétricos. E são as mesmas pessoas que você talvez vá conhecer depois na casa de um amigo, num encontro de trabalho, no curso de idiomas. E nessa ocasião, essa pessoa vai sorrir, te cumprimentar e falar com você como alguém civilizado. Já pensou nisso?

Você tem dicionário?

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Há uns 10 ou 11 anos, eu tive a oportunidade de sentar ao lado da minha amiga Marcinha na redação da revista Arquitetura&Construção. Ocupei a mesa de alguém que tinha saído de licença, ou estava de férias, não me lembro ao certo. A questão é que nessa temporada, eu e Marcinha estabelecemos uma prática muito interessante – do nosso ponto de vista, claro. Como apreciadoras da leitura em outros idiomas, firmamos o compromisso de levar, uma à outra, uma palavra nova diariamente. Foi assim então que aprendi que vovó, em francês, pode ser chamada de “mémé”. E também que uma pessoa ou coisa peluda é “hirsute” na mesma língua. Não me lembro das palavras que ensinei para ela, só que eram em inglês, pois saíam do livro que eu lia naquele momento. Enfim. Mesmo que a maioria dos vocábulos não tenha ficado retida na memória, a experiência só fez fortalecer um hábito que mantenho até hoje: o de consultar o dicionário. Deixo à mão, na estante da sala, quatro volumes: o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, o Dictionnaire Hachette – langue française, o Longman – Contemporary English e minha aquisição mais recente, herança da querida mãe de outra amiga, falecida há exato um ano: o Larousse Pocket – Diccionario Español – Francés/ Français-Espagnol. A eles recorro sempre que aparece uma palavra nova. E olha, elas surgem com frequência. Aliás, eu me recordei de toda essa história porque ontem me deparei com uma. Ops, me deparei, não. Fui confrontada pelo meu marido com um verbo raríssimo do português. O texto da revista Piauí dizia: “José Serra também chegou atrasado, como sói acontecer”. Sói? Ele, nativo da língua espanhola, logo mandou: “Esse verbo existe em português? Parece ‘soler’ do espanhol”. É, pelo contexto, e pelo conhecimento que tenho acumulado em catorze anos convivendo com os falantes de espanhol, só podia ser “soler”, cujo significado é costumar, ter o hábito. Mas em português? Qual seria o infinitivo desse verbo? Levantei da cama, onde já estava deitada e de pijama, e lá fui eu, escada abaixo, consultar o pesado volume do Michaelis. “Soer” em português, vem da raiz latina “solere”. E, também me informa o dicionário, não tem a 1ª pessoa do singular do presente indicativo. Ou seja, não posso dizer “eu soo consultar os dicionários”. Não. Neste caso, tenho que seguir dizendo que “eu costumo consultar os dicionários”, mesmo. Daí, voltei para o quarto, expliquei tintim por tintim ao marido, e me deitei satisfeita. Aprender uma palavra nova me deixa feliz.  

E você, já abriu seu dicionário hoje?